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A Prisioneira
A Prisioneira

 

A PRISIONEIRA

IRONI JAEGER 

15/08/2027

Gênero: Policial/ suspense  

A noite avançava sombria. O firmamento, não suportando as pesadas nuvens, estava na iminência de expulsá-las em forma de chuva. O vento quente varria as calçadas, levando consigo toda sorte de lixo que os humanos jogam pelas ruas.

Caminhando quase encostada a um muro cinza, em uma rua já deserta pelo adiantado da hora e pela forte ventania, ela apressou o passo. Quase corria agora. As pernas tremiam, seu corpo tremia; o pavor era iminente. Sabia que não tinha para onde ir, mas precisava encontrar abrigo: uma igreja aberta, um bar, uma entrada de prédio. Qualquer lugar que lhe oferecesse proteção contra a tempestade que a natureza estava prestes a descarregar sobre a cidade.

Tinha a impressão de ser seguida. Não se atrevia a olhar sobre os ombros, com medo de 

 

que fosse verdade. Por vezes, a sensação de ouvir outro par de passos além dos seus era tão real que podia sentir a pessoa se aproximar. Olhava para o alto, em meio aos prédios e ao horizonte ameaçador; começavam a cair os primeiros pingos frios. Não tinha casaco, nem passagem de ônibus.

Novamente, estava largada à própria sorte. Fora libertada da prisão poucos minutos antes, mas, ao contrário dos filmes, não havia um carro com amigos à sua espera, nem mesmo o advogado compareceu. Recebeu apenas um papel impresso, assinado pelo diretor, que lhe comunicou a liberdade: seu habeas corpus chegara. A cela foi aberta, recebeu seus poucos pertences e o portão foi fechado às suas costas. Poderiam ter deixado que ficasse ali até o amanhecer, mas a única frase que ouviu foi: — Tu é mulher, consegue se virar.

Ana, agora com trinta anos, fora presa pela morte do marido. O delegado explicara os agravantes, mas ela nem prestara atenção.

Quase corria agora. Tinha certeza de que era seguida. Os passos atrás dela também se apressaram. Sentiu a presença de alguém; foi pega pelo braço e sacudida quase com violência. — Ana, Ana! Acalme-se, por favor! Ao ouvir a voz conhecida, conseguiu vislumbrar o rosto do policial antes de desmaiar em seus braços. Pelo rádio, ele avisou o colega que a encontrara. Quando a viatura chegou, ela foi gentilmente colocada no banco traseiro.

Refeita, descobriu-se na mesma viatura, junto aos mesmos policiais, mas não estava algemada, muito menos coberta de sangue. Estava recebendo ajuda. Pararam em frente a um bar. Entraram, e o policial pediu três cafés. Sentada, Ana apoiou os cotovelos sobre a mesa, cobrindo o rosto com as mãos. Seu cabelo preto, maltratado pelos dias na prisão, caía sobre os dedos. As unhas por fazer quase cravaram no couro cabeludo. Era uma assassina; matara para se defender, mas, ainda assim, fora tratada como criminosa.

— Não dá para explicar como eu estava naquele dia — falou ela, ainda apavorada com a lembrança. — Tenho sorte de estar viva.

As lágrimas que, assim como ela, estavam prisioneiras, começaram a se libertar. Corriam pelo rosto cansado e morriam em algum lugar entre o pescoço e o peito. — Pode contar, se isso ajudar a senhora a se sentir melhor — disse um dos policiais.

Conhecera o marido em um dia qualquer. Todos os casais se conhecem assim: um dia simplesmente se encontram e casam. Duas pessoas desconhecidas passam a viver juntas, trazendo na bagagem suas manias, dores, medos e loucuras. Noventa e nove por cento das pessoas no mundo são boas; apenas um por cento é cruel e capaz de fazer o que seu marido fez a ela.

Primeiros Sinais

— Desculpem as lágrimas. Eu tentei ser a esposa perfeita, mas nada era perfeito o suficiente para ele.

Quando o conheceu, Ana era jovem, tinha vinte anos. Gostava de usar maquiagem, minissaia, salto alto e frequentar bares com os amigos. Em um sábado qualquer, ele estava lá. Um amigo os apresentou. Ele parecia gentil, educado... Chamava-se Éder. Disse ser divorciado e que procurava uma esposa. Ana, apesar de jovem, sonhava com uma casa e filhos. Ele era mais velho, charmoso e parecia responsável.

Começou chamando-a de "amorzinho". Ofereceu-se para deixá-la em casa. Assim que ela levantou da cadeira, ele a olhou e, tirando o próprio casaco, ordenou que ela o vestisse. Ana argumentou que não estava com frio, mas ele dirigiu-lhe um olhar congelante e falou entre dentes: — Veste esse casaco agora. Ela entendeu aquilo como superproteção e ficou feliz. Em frente à sua casa, ele a beijou suavemente e marcaram um novo encontro no parque. Ele recomendou que ela usasse um vestido comprido e sapatos baixos. "Deve ser porque vamos caminhar", pensou ela, na sua inocência.

Os dias viraram semanas. As poucas idas ao bar agora eram sempre na companhia dele. Ela já não dançava, não bebia. Cada amigo que se aproximava era recebido por Éder com um olhar de ódio. — Esse cara é doido, se afasta dele — avisou um amigo. Ela apenas sorriu. Estava encantada com a atenção. Como crescera sem pai, achava que era assim que os homens cuidavam das mulheres. Um mês depois, ele a convidou para morar juntos. Ana nem pensou duas vezes.

Na segunda semana de convivência, em uma sexta-feira, ela se arrumou para ir ao bar. Usou um vestido azul justo, salto alto e maquiagem leve. Queria agradar o marido. Ao chegar na sala, ele sequer levantou os olhos: — A gente não vai. — Como não? Vamos todas as sextas. Ele agarrou o vestido dela pelo decote e o rasgou de cima a baixo. Ana ficou ali, em meio aos frangalhos da roupa que comprara especialmente para ele. — De hoje em diante, não vamos mais sair. Tu tem marido agora. Não quero te ver de salto ou maquiagem. Pare de se comportar como uma vagabunda. Tu é uma vadia, te conheci em um bar.

A reação de Ana foi achar que tinha feito algo errado. Foi para o quarto vestir uma roupa menos chamativa. A partir daquele dia, parou de se arrumar, descuidou do cabelo e parou de usar maquiagem, acreditando que, assim, ele ficaria feliz.

O Isolamento e o Medo

Certa noite, querendo agradá-lo, perguntou o que ele queria jantar. — Bifes — respondeu ele, sem olhar. Ela ainda estava aprendendo a cozinhar conforme as instruções dele. Preparou a comida e, como de costume, serviu-o primeiro e ficou em pé, esperando que ele terminasse para que ela pudesse comer. Quando ele cortou o bife, estava cru por dentro. — Vadia! Está querendo me matar para ficar com meu dinheiro? — esbravejou, furioso. — Desculpe, vou fazer outro... Antes que terminasse, o prato voou contra a parede, raspando em sua cabeça. Ele saiu bufando. Ana limpava a sujeira quando ele voltou, ajoelhou-se ao lado dela e ajudou a limpar a bagunça. Abraçou-a e disse que a culpa era dela por não saber fazer as coisas, mas que ele a ensinaria a ser a "esposa perfeita".

Mesmo com as explosões, ela achava que o amava. Pouco depois, descobriu que estava grávida. Ele apareceu com flores e alianças. Ana aceitou casar, pois não queria admitir para a família que falhara. Antes da cerimônia, ele avisou: — Despeça-se deles. Será a última vez que os verá. Mulher minha não anda de fofoquinha com parente. Ela pensou em desistir, mas ele segurou-a pelos cabelos: — Nem pensa nisso, senão mato toda a tua família aqui hoje.

Na frente dos convidados, ele a tratou como rainha. Mas, no dia a dia, o controle era absoluto. Dinheiro, troco, mantimentos... tudo era conferido. Quando ela comprou um batom, ele o esmagou com os pés: "Se eu quiser mulher de batom, pego as piranhas da rua".

Ele saía por dias e a deixava trancada em casa com o filho. Quando voltava, trazia flores, vivendo ciclos de "amor" e agressões verbais. O filho crescia e temia o pai. O inferno da prisão domiciliar só piorava.

O Ápice e a Libertação

Certa madrugada, Ana acordou com gritos na sala. Éder e dois amigos estavam com prostitutas. Eles as agrediam e estupravam enquanto riam. Ao notar Ana, Éder a arrastou para o meio da sala, rasgou sua camisola e a estuprou na frente dos outros. — Isso é para tu aprender que eu faço o que quero. Se descer aqui outra vez, deixo eles te usarem.

Ela passou a viver esperando uma chance de sair viva. Ele a ameaçava constantemente: "Mato tu e teu filho e digo que fugiram". Certa tarde, um dos amigos dele tentou invadir a casa enquanto ela estava trancada. Ela anotava tudo em um diário secreto, torcendo para que alguém o encontrasse caso ela morresse.

O fim começou quando ele reclamou de uma camisa mal passada. Ana explodiu: "Não aguento mais, quero o divórcio!". Ele bateu a cabeça dela contra a parede e segurou o filho deles pelo pé, no alto da escada, ameaçando soltá-lo. Ana ajoelhou-se e implorou perdão. Ele poupou a criança, mas avisou: "Hoje não vou te matar. Mas tua hora vai chegar".

Dias depois, ele deixou a porta aberta por várias tardes seguidas. Ana achou que era uma armadilha e não saiu. No quarto dia, decidiu fugir. Pegou o filho, o diário e correu em direção à delegacia. Mas, na esquina, sentiu o puxão no cabelo e algo pontudo nas costas: a faca da cozinha.

De volta em casa, ele a espancou até que ela perdesse os sentidos. Ele disse que sairia para comprar coisas e "se livraria do lixo" na volta. Quando ele saiu, Ana levantou-se. O instinto dizia que aquela era sua última noite se não reagisse. Quando ele voltou, ela o convidou para um chá. Ele aceitou, acreditando que ela estivesse rendida.

Enquanto ele bebia, sentado de costas para a pia, Ana pegou a faca e a enterrou em suas costas. Ele gritou. Ela desferiu o segundo golpe. O homem valente agora implorava por ajuda no chão. Ana sentou-se e terminou seu chá calmamente, observando o "rio de sangue" que significava a sua liberdade. Por fim, ajoelhou-se e desferiu o golpe final no pescoço.

Chamou a polícia e esperou.

 

O café chegou, trazendo Ana de volta à realidade do bar. O policial entregou a xícara às suas mãos trêmulas. Lá fora, a chuva lavava a imundície das ruas. — Venha — disse o policial. — Nós a levaremos para casa. — Que casa? — pensou ela.

A viatura parou diante de um prédio rosa. "Abrigo para mulheres vítimas de violência", leu ela, incrédula. Chorou novamente, mas desta vez de alívio. Recebeu um banho quente, roupas limpas e uma cama. — Amanhã eu volto — prometeu o policial. — Cuidaremos das suas coisas.

Antes de dormir, ouviu um sussurro: "Tudo dará certo. Logo seu filho estará aqui contigo". Pela primeira vez em anos, Ana estava, de fato, livre.