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O mausoléu
O mausoléu

MAUSOLÉU

Ironi Jaeger

31/05/16 

Gênero: humor



Aquele marido rico, sovina e excêntrico, não perdia uma oportunidade de humilhar sua linda esposa que, apaixonada, não considerava as atitudes do marido como defeito e de nada adiantam os conselhos dos amigos.

 

Com o passar dos anos, Jovêncio envelheceu e adquiriu manias novas. Certo dia ao acordar, descobriu que para ser feliz precisava de um mausoléu para garantir seu lugar depois de morto.

Mas não podia ser qualquer mausoléu não, precisava ser o mausoléu.

 

Para isso, contratou um jovem e recém-formado engenheiro e explicou que queria um mausoléu que tivesse o conforto de uma casa, para que quando sua linda esposa ou os amigos o visitassem, pudessem demorar o máximo possível.

 

Explicou ao estupefato moço:

Quero um quadrado todo de vidro onde ficará meu caixão que, claro, não pode ser de vidro, mas sim, de carvalho envelhecido, caso contrário verão meu corpo putrefato.

Uma sala com mesa e cadeira, deve ter wifi, frigobar, luz elétrica e uma confortável poltrona, pois tenho certeza que minha linda esposa vai sentar nela e chorar minha falta.

 

O jovem engenheiro pensou no dinheiro que estava precisando muito, mas em contraponto, pensou nas piadas que os colegas fariam. Ainda ponderava sobre o assunto, e quando pensou em dizer não, a esposa do Jovêncio apareceu na porta.

 

Olhou para o lindo cabelo cacheado e o corpo esguio, que pelas partes visíveis era da cor morena, reparou na bunda sexy e na boca vermelha, então, rapidamente pegou seu bloco de anotação e dirigiu-se até a mesa próxima, sendo seguido pelo casal.

Um olho observava o papel e outro se perdia no decote de Teresa. Fez contas, somou, subtraiu, dividiu e multiplicou os olhares dentro do decote da mulher.

 

Olhando para o gordo e avermelhado porco, digo, homem à sua frente, emendou:

― 50.000 reais, por menos não dá, tenho que conseguir a licença, comprar vários lotes no cemitério, encanar água, eletricidade, conseguir internet, comprar o caixão, os móveis e provavelmente subornar algumas pessoas. ― Olhou para seu bloco onde sua soma total era equivalente a 10.000 reais e falou:

― É, por menos não dá.

O homem gordo refletiu por alguns minutos e então, olhou para sua esposa e perguntou:

― O que tu acha, mulher?

Ela estranhou a pergunta, visto que ele jamais lhe consultava em nada.

Surpresa demais para responder, levantou o olhar encontrando com os do jovem, cujo olhar dizia “aceita, por favor...”

 

Calmamente baixou a cabeça e falou em voz baixa:

― Isso faz o meu amorzinho feliz?

― Sim. ― Ele respondeu impaciente por não opinar.

― Então faça. Eu concordo com tudo que faz o meu amor feliz ― e segurou a mão do marido.

Jovêncio fez o cheque e recomendou que caso faltasse dinheiro, avisaria. ― Afinal, quero gastar meu dinheiro em vida para não deixar nada para os outros.

Apertou a mão do rapaz e o acompanhou até a porta.

 

― Ai, desculpa, esqueci minha caneta da sorte na mesa ― disse o rapaz voltando para a sala. Em um papel, rabiscou um número e entregou à mulher, o papel rapidamente sumiu dentro do decote.

 

Conferindo os centimetros 

Dias depois, o engenheiro ligou para Jovêncio, precisava que fosse dar uma olhada no projeto, pois estava sem dúvida quanto a um pequeno detalhe.

― Não posso sair agora, estou em reunião. ― Respondeu o homem.

 

― Poxa! Mas sem saber desse detalhe, não tem como continuar a obra ― respondeu o rapaz com a voz preocupada. Mas, se não dá, paciência. Paramos o trabalho até que o senhor possa vir.

Jovêncio ficou em silêncio por alguns instantes.

― Posso pedir para Teresa ir até ai, mas ela é uma sonsa, uma burra, não sabe nada de nada.

― Mas, senhor ― rebateu o engenheiro ― é um detalhe pequeno, questão de centímetros, tenho certeza que ela saberá corresponder ao que quero. E ela ama o senhor loucamente, notei o olhar que ela lhe dirigia. Tenho certeza que ela saberá fazer a coisa certa.

― Vou ligar para ela e perguntar, retorno em seguida.

 

Jovêncio levou minutos para convencer a chorosa esposa de que ela era capaz de satisfazer o que o moço queria.

― Querida, por favor, vá. ― Pela primeira vez, ele a tratou com carinho. ― Querida, ele está com uma dúvida, coisa de 19 ou 20 centímetros. Vá, por favor, e o ajude com essa dúvida.

Tanto insistiu que a mulher concordou em verificar a situação.

 

O jovem sorriu ao receber a ligação contando que Teresa fiscalizaria os centímetros em dúvida.

― Ótimo, assim não preciso parar o que estou pensando em fazer.

Horas mais tarde, durante o jantar, Jovêncio perguntou para a esposa:

― E aí, qual era a dúvida do moço? O que ele queria fazer com os tais centímetros?

― Nossa, amor, foi uma dúvida cruel ― disse ela de cabeça baixa ― O coitado não sabia se botava na frente ou atrás.

― E como ficou? ― Perguntou ansioso o marido.

― Decidimos pelos dois, assim ficou um trabalho perfeito.

Jovêncio sentiu orgulho de sua esposa e disse com ternura:

― Eu sabia que era capaz de fazer a coisa certa.

― Mas tive tanto medo de que estava fazendo errado.

Fez errado nada, eram detalhes pequenos.

― Mas que fazem uma diferença enorme ― ela respondeu suavemente ― nunca pensei que fizessem.

 

E então, durante as tardes Teresa ia fiscalizar a obra para que todos os centímetros estivessem em seu devido lugar.

Durante um churrasco com o casal de amigos e a presença do engenheiro, a bebida fez efeito em Jovêncio e o assunto do mausoléu veio à tona.

― Esse aqui é Ricardo, o jovem engenheiro que está construindo meu mausoléu.

― Que lindo ― disse o amigo ― Ser enterrado ao lado da esposa em luxuoso mausoléu, não é para qualquer um não.

―Enterrados juntos?! ― Ofendeu-se o homem. ― Capaz! Nem pensar! O enterro é meu e quero ficar sozinho.



A esposa, humilhada pelo desprezo do marido, chorou dessa vez de verdade.

― Estou até pensando em contratar esse rapaz para cuidar do mausoléu depois que eu morrer.

― Mas ele vai precisar de dinheiro ― disse o amigo.

― Não faz mal, deixo o dinheiro para ele.

―Não pode ― o amigo rebateu ― sua esposa é sua herdeira.

 

Ricardo dirigiu-se até a estante, pegou uma caixa de lenços de papel e entregou para Teresa que chorava quase aos soluços. Esse gesto de carinho não passou despercebido ao casal de amigos.

― Acho que não tem jeito, vou ter que deixar o dinheiro para essa vaca mesmo. Afinal, estarei morto mesmo e não vou poder gastar. ― Disse ele às gargalhadas, acrescentando:

― Mas ela vai ter que assinar um papel se comprometendo a cuidar do meu mausoléu.

Virando-se para a esposa, falou quase aos berros:

― E para de chorar sua ingrata, imbecil, está me fazendo passar vergonha na frente dos meus amigos e do rapaz.

 

Ela engoliu o choro e de cabeça baixa disse:

― Como eu queria que tu gostasses de mim.

― Mas eu gosto de ti, sua burra, esse é meu modo de gostar.

― Se tu gostasses de mim, não me deixava.

― Mas não estou te deixando, quem foi que disse?

― Como não?! ― Ela gritou ― Tu queres morrer!

― Ah, quando eu morrer vou te deixar sim ― ele soltou outra gargalhada.

 

A mulher desconsolada abriu o berreiro novamente.

― Não, meu amor, não morre, por favor, o que vai ser de mim?! ― Disse ela surpreendendo a todos.

―Calma ― Disse ele surpreso com a atitude da esposa.

― Afinal, por que esse desespero? ― disse o amigo, percebendo algo estranho no ar.

― Se eu morrer antes dele, serei enterrada numa vala comum. Ninguém irá me visitar. Eu, que fui fiel a vida toda e que só amei um homem, vou ser enterrada como uma qualquer.

 

O amigo solícito opina:

― É mesmo, ela tem razão. O senhor pode morrer tranquilo, tem seu mausoléu, mas ela, coitada, não tem nada, nada mesmo.

Diante do choro da esposa, do olhar acusador do casal de amigos e do visível constrangimento do rapaz, ele se sentiu desumano, respirou fundo e falou:

 

― Para de chorar, mulher. Queres um mausoléu? Terás um! Mas longe do meu. Não quero o teu tirando o brilho do meu. Fala ali com o Ricardo e explica os detalhes. Amanhã te faço o cheque.

Teresa secou suas lágrimas. O casal de amigos rasgou-se em elogios e ele, orgulhoso, sorria.

Jovêncio morreu tempos depois, sem ver pronto seu mausoléu. Foi enterrado numa cova comum.

Casada com Ricardo, Teresa recebeu o título de atriz do ano.