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Despreparada
Despreparada

Despreparada.
6/04/26- Ironi Jaeger
Talvez seja uma sátira. Sobre mim. Sobre a vida. Sobre tudo aquilo que eu até consigo entender… mas evito pensar.
Nasci em um certo dia — pelada, sem dentes, sem cabelo — sendo retirada de um lugar onde, até então, tudo era confortável. E logo recebi um tapa na bunda. Minha primeira agressão oficial.
Cortaram o cordão que me mantinha segura por nove meses. E ali fiquei, entregue em mãos estranhas. Ainda pelada, alguém olhou e anunciou, como se fosse um decreto:
— É uma menina.
O pai disse:
— Não vai servir pra trabalho pesado.
A mãe disse:
— Que bom… mais uma pra ajudar em casa.
E assim, pelada, careca e banguela, fui oficialmente apresentada ao mundo.
Uma pessoa completamente despreparada para aquilo que chamam de vida.
Claro, depois vieram os ensinamentos.
Ou melhor: os ensinamentos que decidiram que eu deveria aprender.
Sem escolha, dependi de tudo e de todos.
Alguém pra me alimentar.
Alguém pra me limpar.
Alguém pra me ensinar a andar.
E eu fui. Cambaleando.
Despreparada a cada passo.
Mas existe um lado curioso nisso tudo:
a vida é uma grande aventura… porque ninguém sabe viver.
Estamos todos no mesmo barco — só fingindo que sabemos remar.
E assim como fizeram conosco, passamos a vida tentando ensinar os outros.
A pensar como pensamos.
A agir como achamos certo.
A viver dentro das nossas próprias regras.
Queremos que aprendam do nosso jeito…
como se o nosso jeito fosse o manual oficial da existência.
Crescemos.
Mas, no fundo, ainda somos aquela mesma criatura:
pelada, careca, sem dentes — só que agora disfarçada de adulta — ainda precisando de apoio, só que fingindo independência.
A vida segue.
Aprendemos.
Mas, curiosamente, aprendemos mais com os erros do que com os acertos.
Esquecemos o que é essencial.
E guardamos o que já deveria ter sido esquecido.
Esquecemos que só existe o presente.
Que o passado não volta.
E que o futuro… ah, o futuro muda a cada dois segundos.
E mesmo assim, insistimos em prever o futuro —
quando, na verdade, ele já está sendo escrito no que fazemos agora.
A vida continua.
Algumas coisas caem nas nossas mãos como mágica.
Outras, perseguimos com afinco… e nunca alcançamos.
Brigamos.
Erramos.
Acertamos — às vezes sem perceber.
Gastamos energia com o que não importa
e deixamos de lado o que realmente deveria importar.
Somos escolhidos.
Escolhemos.
Somos injustos.
Sofremos injustiças.
Tem dias em que acordamos prontos para mudar o mundo.
E começamos mesmo.
Mas o dia passa.
E no outro… acordamos nos sentindo a pior versão de nós mesmos.
E aquele plano de mudar o mundo?
Vai pra gaveta.
E mesmo que no dia seguinte a vontade volte…
já não lembramos onde deixamos as ferramentas.
A chave de fenda.
O alicate.
A fita adesiva.
Tudo perdido — junto com a motivação.
E então eu percebo:
Sei fazer o básico.
Tomar café.
Fazer almoço.
Arrumar a casa.
Cuidar de mim.
Cuidar dos meus cachorros.
Mas… e o meu coração?
E os meus sentimentos?
Para isso, ninguém me preparou.
Para o simples, estou pronta.
Para o essencial… completamente despreparada.
E assim sigo.
Nem todas as missões têm sentido.
Nem todas as provas mostram a nota verdadeira.
Aliás… quantas vezes roubamos de nós mesmos?
Tentamos “colar” na prova do outro.
Buscando respostas fáceis para perguntas que eram nossas.
Mas a vida não aceita cópia.
Cada um precisa escrever a própria resposta.
E então eu me pergunto:
Ser despreparada é uma piada bem contada…
ou uma verdade difícil de engolir?
Porque, no fim das contas, também estamos despreparados para o fim.
Para a morte.
Para o silêncio.
Para o desconhecido.
Não sabemos o que acontece quando fechamos os olhos pela última vez.
E mesmo assim…
adiamos tudo.
Deixamos para amanhã.
Para depois.
Para quando der.
Mas o final chega.
Preparados ou não.
E quando chega…
não há mais o que fazer.
É apenas o fim.
Despreparados — como sempre estivemos.