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O Ensaio do Fim
O Ensaio do Fim

O Ensaio do Fim
20/04/26 ironi Jaeger
A fatalidade não é um raio que cai de um céu azul; é, muitas vezes, uma construção meticulosa de silêncios e coincidências.

Em Crônica de uma Morte Anunciada, Gabriel García Márquez nos mostra que o destino não precisa de mistério para ser implacável.
Ele se alimenta da luz do dia, do café da manhã e da inércia de uma cidade inteira.

​A cidade acordou com o cheiro de flores de laranjeira e o peso de um segredo que não pertencia a ninguém, porque já era de todos.

Não houve sussurros nos becos; o anúncio foi feito aos gritos, no balcão da padaria e entre os lençóis estendidos ao sol.

Os gêmeos Vicário não escondiam as facas de matar porcos; eles as exibiam como se fossem instrumentos de uma liturgia necessária.

​O erro de Santiago Nasar não foi apenas o que disseram que ele fez, mas o fato de ele habitar um mundo onde a honra é uma dívida que só se paga com o vermelho do sangue.

Enquanto ele vestia sua roupa de linho branco, imaculada como um sacrifício pronto para o altar, a vizinhança o observava passar.

Havia quem achasse que era brincadeira, quem achasse que Deus interviria e quem, por simples preguiça de mudar o curso do rio, preferiu fechar a janela.

​A tragédia não aconteceu por falta de aviso. O destino, naquele dia, comportou-se como um ator que esqueceu a fala, mas continuou em cena porque o público se recusava a interromper o espetáculo.

Ninguém impediu os irmãos. Ninguém gritou "corre" com força suficiente para desviar os passos de Santiago da porta fatal.

Quando as facas finalmente encontraram o linho, não foi apenas Santiago quem morreu. Morreu a inocência do acaso.

Ficou provado que, às vezes, o futuro é um trem vindo em nossa direção enquanto todos na plataforma discutem o horário da partida, sem que ninguém estenda a mão para puxar o freio.

No final, restou o papel: uma crônica escrita com o sangue de quem não teve tempo de entender que, naquela manhã, o mundo inteiro era uma armadilha