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SExta-feira ou Algo Parecido
SExta-feira ou Algo Parecido

Hoje uma crônica mais reflexiva, introspectiva falando de sentimentos.

Sexta-feira ou algo parecido  
30/03/26- Ironi Jaeger

Eu sabia que havia algo errado.
Só não sabia exatamente o quê.
O dia começou com uma sensação difícil de nomear.
Como se eu tivesse acordado dentro de uma versão levemente deslocada da realidade. Tudo estava no lugar. E, ainda assim, não estava.
O calor era excessivo. Não apenas no ar.
Era um calor que pressionava, que sufocava por dentro, como se algo estivesse prestes a acontecer — ou já tivesse acontecido, e eu ainda não tivesse percebido.
Foi então que a mensagem chegou.
Simples. Curta demais para o efeito que causou.
Li uma vez. Depois outra.
E algo em mim respondeu antes que eu pudesse pensar.
Não foi impulso.
Também não foi escolha.
Foi… automático. Como se aquela versão de mim já estivesse esperando por aquilo.
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos, tentando entender o que exatamente tinha mudado. Porque algo tinha mudado. Eu sentia.
Mas não havia nada visível.

Eu ainda tinha um compromisso para aquele dia torto
O caminho era o mesmo de sempre. As casas, os fios atravessando o céu, os detalhes repetidos de um cotidiano que deveria ser familiar.
Mas havia ruído, não um som, exatamente. Algo interno, contínuo, como um pensamento que se repete sem se revelar por completo.
Então eu vi.
O sol.
Baixo demais no horizonte. Intenso demais.
Como se estivesse me observando.
A luz dourada atravessava tudo — telhados, paredes, a caixa d’água ao longe e por um segundo tive a estranha impressão de que aquilo não era um fim de tarde.
Era um aviso.
Parei.
Não por decisão. Meu corpo simplesmente parou.
E naquele instante, algo dentro de mim se alinhou de um jeito desconfortável.
Como peças de um quebra-cabeça que eu não lembrava de ter começado.
A mensagem.
O calor.
A reação que não parecia minha.
E agora, aquele pôr do sol… bonito demais para ser só bonito.
Senti um arrepio.
Não de medo exatamente, mas de reconhecimento.
Como se eu já tivesse vivido aquele momento antes.
Ou pior: como se ainda estivesse vivendo, repetindo, sem perceber.
Respirei fundo.
O mundo ao meu redor continuava normal. Pessoas passando, carros, vozes ao longe. Tudo funcionando como deveria.
Menos eu.
Porque ali, diante daquela luz quase irreal, tive uma certeza silenciosa:
Algumas coisas não anunciam quando começam.
Só deixam sinais.
E eu estava começando a enxergar os meus.
Diante daquele pôr do sol grandioso, eu percebi… estava pronto para recomeçar. Finalmente o passado ficaria em seu lugar